quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Abstinência?



                Acordou com café da manhã na cama, já estava acostumada com isso. Seu marido era bastante carinhoso, gentil, sincero e amoroso com ela, costumava o chamar de “homem perfeito”, e ele era. Homem pra toda a vida, homem verdadeiramente homem, atitudes, caráter, tudo! O homem que toda mulher procura, mas que quando o encontra o costuma chamar de homossexual. Idiotice! Entretanto, ela soube valoriza-lo.
                Emmy era uma mulher madura, de seus trinta e poucos anos, mais poucos do que muitos. Casou-se cedo, não teve muitas experiências com relacionamentos, afinal, encontrou seu “príncipe encantado” logo. Boa mãe, não, uma mãe exemplar. Excepcional amiga! Tudo o que fazia era procurar melhorar a vida das pessoas que amava. E como amava! Trabalhava porque queria, não por obrigação. Inglês fluente, que a fez arrumar o emprego que tinha. Recepcionista de um hotel cinco estrelas, para gringos. Esse emprego mudaria sua vida de súbito.
                Após o café da manhã na cama, Emmy se arrumou para trabalhar. Já em seu trabalho, como de costume, estava arrumando as fichas dos hospedes. Um deles, novo, acabara de se cadastrar, conversou com ela:
                ­- Te chamaria a atenção se eu dissesse que tenho várias cicatrizes pelo corpo?
                - Claro, eu costumo dizer que meu tempo de adolescência acabou, mas se o senhor ainda está nesse período. Claro que sim! O hospede sempre tem razão.
                - Além de bela, inteligente. Costumo ter atração por mulheres assim como você.
                - Deseja algo a respeito do hotel?
                - Quero apenas dizer que meu nome é Adam. Costuma ser cortesia se apresentar a uma pessoa que se quer conhecer.
                - Emmy.
                Emmy não gostava de homens desse tipo, convencimento, arrogante, era o que mais ela odiava em um homem. Esperava ser a ultima que o veria. Entretanto, mais tarde, ali mesmo na recepção veio ele puxar assunto.
                - Sabe a definição de perseverança?
                - Você costuma retirar cantadas de filmes? Ou é só comigo?
                - Adorei seu humor!
                Estranhamente Emmy, se interessou por aquele sujeito. Sua vida consolidada, e rotineira, finalmente ganhava um tom de adrenalina, isso parecia bom aos olhos dela. Conheceram-se melhor. A partir dali a vida dela era esperar que ele falasse com ela. Havia o adicionado no Face, não saia do face. Tudo o que ele postava ela pensava que era pra ela. Frenesi.
                Emmy, já possuía um relacionamento com Adam. Seu bad boy. Isso era sarcástico, estava vivenciando uma aventura adolescente que nunca tinha vivido. Agia como adolescente, pois prolongava um relacionamento que não era pra ter acontecido. Sentia culpa por estar traindo seu marido, e piorava quando ela via que ele só a tratava melhor. Mas inevitavelmente se apaixonou por Adam. Sentimentos são controlados? Como escolher de quem gostar?
                “ Deixar meu marido? Minha família por um homem? Ainda mais ele? Mas só poderia ser por ele. Ai que dor de cabeça. Droga! Quinze anos e três filhos. Três filhos. O homem perfeito. O marido perfeito. Vida, aparentemente, perfeita. Confusa. Confusa. Que decisão difícil. Porque? Comigo?”
                Emmy sabia que poderia se arrepender pelo resto da vida. Ela realmente sabia disso. Entendia o quanto isso era grave. Ela colocaria em pratica o que, por uma conversa com um amigo, passou a ser a frase de sua vida? Ele disse : E não é tão importante ser feliz pra sempre, quanto se está feliz agora.” Seria pra sempre enquanto durasse. Certo? Talvez. Emmy sabia que aquela adrenalina, aquele sentimento ardente, supriria o vazio que sentia em sua alma e que vinha se arrastando durante um tempo. Ela sabia que era loucura, mas que seria feliz com Adam.
                Feliz pra sempre. Ela foi, durante cerca de dois meses. Foi pra sempre enquanto durou. Irônico. Não, melhor, sarcástico. Agiu exatamente como a adolescente que jamais fora. A vida brincou com sua vida. Tudo o que ela construiu durante seus trinta e poucos anos foi destruído em dois meses. E que dois meses. Dois meses felizes. Talvez os mais felizes de sua vida. Pelo menos os mais felizes que ela se recordava. Não importa como, ou porque Adam a abandonou, apenas, que ele a abandonou.
                A partir dali Emmy já não conseguiu mais dormir. Sua vida se tornou seu inferno. Inferno pessoal. Consegue entender? Perdeu o que ela achava ser o sentimento mais intenso e ardente de sua vida. Perdeu o respeito de sua família. Perdeu o respeito de seu marido. Perdeu, e isso era o que mais doía, o respeito de seus filhos. Aventuras vividas. Vivemos elas durante toda a vida. Nos arrependemos por toda a vida.
                Emmy perdeu sua vida por uma decisão errada. Ela tinha consciência de que era errada. Ninguém sabia disso mais que ela. Jamais recuperaria. Nem mesmo ela se reconhecia. E a amargura que a vida a fez sentir, fez com que ela abdicasse de seu eu. E pra que continuar a vida se a vida não continua?

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